terça-feira, 10 de julho de 2007

APÓS O ENCERRAMENTO DO EXPEDIENTE, O HOMEM COM OLHOS DE PEIXE ENTRA NO REBOQUE DA LINHA 6



O bonde está lotado como sói acontecer a essa hora. Os passageiros, em sua maioria homens, puxaram a gola do sobretudo para cima e afundaram o chapéu no rosto. Fazia muito frio naquela noite e o homem observava de olhos arregalados e vazios as nuvenzinhas de respiração exaladas por muitas bocas.

Precisou ficar de pé durante um bom tempo mas, após a quinta parada, vagou um lugar à sua frente e ele se sentou. Havia muito tempo até a parada final. Ele tirou um jornal do bolso de dentro de seu sobretudo, alisou-o cuidadosamente e se afundou nas notícias. Por alguma razão qualquer, no entanto, ele não conseguiu se concentrar direito no texto. Não compreendeu o sentido de muitas frases, mesmo depois de repetir várias vezes a leitura. Finalmente, notou nas páginas seguintes alguns erros de impressão a princípio isolados e que se tornavam progressivamente freqüentes. Na certa, por engano ou desleixo do tipógrafo, algumas palavras e linhas – ou até mesmo parágrafos inteiros – estaram impressos num alfabeto desconhecido. Talvez fosse o grego ou o cirilíco. De qualquer modo, ele decidiu escrever uma carta de protesto, dirigida à redação do jornal, ainda na mesma noite.

A viagem, que ele precisava fazer duas vezes por dia (pela manhã de ida e à noite de volta) geralmente levava quarenta e cinco minutos. Nos dias ruins – ou seja, naqueles com grandes engarrafamentos –, ela podia demorar muito mais. No entanto, essas demoras não lhe eram nem agradáveis nem enfadonhas. Ele não gostava de voltar para casa, um lugar onde não se sentia à vontade. No fundo, ele nunca se sentira em casa em parte alguma. Quando os colegas de escritório conversavam a esse respeito, ele ficava escutando e tentava, em vão, coar para si uma idéia do que seria estar em casa. Contudo, no decorrer da vida ele se acostumara a essa falta, como quem se acostuma a um pequeno defeito físico, com o qual, bem ou mal, a pessoa tem que se arranjar. Como vivia sozinho, seu dia terminava irrevogavelmente assim que fechava a porta da casa. Em compensação, enquanto estivesse sentado no bonde, parecia ter diante de si todas as possibilidades. Ele não ficava pensando em nada especial, todas as noites era essa mesma pequena e absurda esperança, e o mesmo pequeno desapontamento, quase inconsciente.

Depois de algum tempo, ele levantou a vista de sua leitura, e se surpreendeu com o fato de que o vagão estivesse já quase completamente vazio tão cedo. Restaram apenas quatro pessoas... ou melhor, cinco, contando com ele. Na sua frente estavam sentadas duas velhas gordas com gigantescas sacolas de compras, que demonstravam não estarem dispostas a largar sequer por um segundo, enquanto se examinavam reciprocamente, com olhares desconfiados. As duas mulheres estavam agasalhadas por uma enorme e ridícula quantidade de xales, jaquetas de tricô e lenços de lã, e usavam luvas que deixavam livres as pontas dos dedos. Quando, por entre os panos, se lhes divisava os rostos avermelhados, descobria-se que eram estranhamente parecidas. Talvez se tratasse de irmãs.

Um pouco afastado estava sentado um homenzinho vestido miseravelmente, que olhava para o chão à sua frente e a determinados intervalos de tempo balançava a cabeça como se quisesse compreender alguma coisa, que repetidamente não compreendia. Ao seu lado ia um garoto delgado, com um boné de marinheiro jogado em cima dos cabelos louros, cantando baixinho, enquanto fazia com os dedos buracos na fina camada de geada que cobria os vidros, para espiar para fora. De repente, ele pareceu ter descoberto algo do lado de fora, pois começou a puxar o homenzinho que se agitava. Chegou até mesmo a pegá-lo no rosto para chamar sua atenção. Demorou algum tempo até que o homem se recompusesse o suficiente para lhe dar ouvidos, receber a importante comunicação e balançar a cabeça. O bonde parou e os dois saíram do vagão de mãos dadas.

Quando se aproximava o ponto seguinte, as duas mulheres se levantaram e, ofegando e bufando, saíram empurrando as enormes sacolas de supermercado em direção às portas. Uma se dirigiu para a porta da frente, e a outra para a traseira, enquanto se olhavam mais algumas vezes com expressão furiosa, o que lhes causava certo transtorno, tendo em vista o volume de seus corpos.

O homem com olhos de peixe as seguiu com a vista. Soprou um buraco na geada que cobria seu vidro para ver se as duas tornariam a mesma direção. No entanto, nada conseguiu descobrir. O bonde se pôs em movimento, ele se recostou e deixou que seu olhar perambulasse pelo vagão vazio.

Depois de algum tempo, ocorreu-lhe que possivelmente um fiscal ainda entraria no bonde. Ele apalpou o sobretudo procurando em todos os bolsos o bilhete mensal de viagem, mas não o encontrou. Era a primeira vez que isso lhe acontecia na vida, fato que considerou inexplicável. Com certeza, não havia muitas probabilidades de que um fiscal fosse subir no veículo no último trecho da viagem, mas se isso acontecesse, haveria problemas. Tranqüilo, ele tornou a revistar todos os bolsos. Finalmente, desistiu e tentou, sem sucesso, se recordar da última vez que tivera o documento em mãos.

Algum tempo depois lhe ocorreu que o sol, que no fim do expediente estava prestes a se pôr, ainda não desaparecera por completo. Pelo contrário, sem dúvida nenhuma ele se levantara um pouquinho mais, o que lhe causou surpresa.

Ele raspou com as unhas as flores de gelo do vidro da janela e olhou para fora. Passavam vilas e pequenas casas campestres de madeira, cercadas por enormes jardins floridos. Em um balanço estavam sentadas crianças vestidas com leves roupas de verão ou seminuas. O homem com olho de peixe achou isso uma leviandade. As crianças deviam estar querendo morrer. No escritório, eles haviam escrito 23 ele janeiro. Mas as árvores lá fora estavam verdes e algumas até floresciam. Nesse momento. penetrou seu campo de visão um monumento cercado de canteiros: um veado em repouso que, ao invés dos chifres, ostentava na testa uma ramagem viva e espessa.

Havia quase dezesseis anos que percorria esse caminho, mas nunca reparara naquele monumento. Nesse momento, ele não saberia dizer com certeza onde o bonde se encontrara. Desabotoou a manga do sobretudo e deu uma olhada no relógio de pulso. Era evidente que os ponteiros haviam corrido para trás. Ele levaria o relógio para o conserto e teria de passar sem ele alguns dias. Essa perspectiva lhe pareceu mais do que dolorosa, pois vivia semeando horários exatos. Desafivelou então o relógio, levou-o ao ouvido e balançou. Nisso, o relógio parou.

Agora, saltava aos olhos que o condutor esforçava-se por recuperar o tempo perdido. Já não se detinha em nenhuma parada e, havia algum tempo, ia além da velocidade permitida. O homem com olhos de peixe considerou tal procedimento uma leviandade.

Pouco a pouco foi derretendo a camada de gelo das janelas. Pequenos pedaços de gelo escorriam pelos vidros, atropelavam-se e caíam. Nesse momento, o bonde estava passando por um trecho de bosque. Entre árvores frondosas, havia figos gigantescos, cavalinhas enormes e palmeiras. O homem de olhos de peixe começou a pensar se não havia tomado a linha errada. Mas isso não era possível, pois na parada em que ele tomara o bonde, fora a linha 6 não passava nenhuma outra. Portanto, estava excluída a possibilidade de equívoco. Ele se recostou e esperou.

De repente, um relincho selvagem o sobressalta. Um cavalo branco estava correndo ao lado do vagão, bem debaixo de sua janela. Trazia sela e arreios orientais e sua crina e rabo flutuavam ao vento. Às vezes, durante alguns segundos, ele se perdia de vista atrás de folhagens e árvores, mas logo voltava a se aproximar do vagão em marcha. O homem com olhos de peixe não havia prestado atenção há quanto tempo o animal estava se comportando de tal modo, e tão pouco achava que esse assunto fosse de sua competência. Contudo, como o cavalo branco persistisse em seu comportamento, ele finalmente se levantou, foi até a plataforma traseira e tentou espantar o animal com gestos. Como não obtivesse sucesso, chegou a tentar abrir a porta, embora fossem portas automáticas que ficavam fechadas quando o bonde estava em movimento. Entretanto, para seu espanto, depois de algumas sacudidelas a porta se abriu e um ar quente e úmido penetrou no vagão.

Quando o cavalo branco percebeu o homem parado frente à porta aberta, aproximou-se imediatamente e se manteve emparelhado com o bonde, de tal maneira, que ele poderia saltar do estribo diretamente para a sela. Assim, ele quase roçava a lateral do vagão. O homem com olhos de peixe deu-lhe um pontapé, balançou os braços e gritou:

– Vá embora! Trate de dar o fora daqui!

O homem estava preocupado que pudesse acontecer alguma coisa ao cavalo branco, o que provavelmente provocaria uma longa parada do bonde, até que a polícia verificasse a causa do acidente. Isto faria com que sua volta à casa fosse retardada por horas.

Contudo, todos os seus esforços só conseguiram fazer com que o animal tentasse aproximar-se ainda mais dele. Somente quando lembrou de enfiar dois dedos na boca e assobiar a plenos pulmões, foi que o cavalo se afastou por alguns instantes. Ele serrou-se no corrimão, inclinou-se bem para fora e ainda pôde ver o animal apontando as orelhas com medo, pânico e mostrando os dentes. Depois disso, ele retornou para seu assento.

Nesse meio tempo, a paisagem mudara. Agora era urna estepe queimada. Aqui e ali, em lugares onde a grama ainda ardia, erguiam-se pequenas nuvens de fumaça. O ar da planície bruxuleava com o calor. Certa feita, ele divisou na distância uma fila de prisioneiros; umas figuras espantosamente famintas com roupas listradas. Eles caminhavam sobre pernas-de-pau, presumivelmente por causa do calor do solo. Ele tirou o sobretudo e colocou-o cuidadosamente no encosto do assento ao seu lado. Nesse momento o sol estava no zênite. O calor abrasador ressecou-lhe a boca. Ele gostaria de ter algo para beber, mas precisava ter paciência e esperar chegar em casa. Afinal de contas, não poderia demorar muito mais tempo.

Pouco depois, o bonde começou a andar bem devagar. Estava passando ao longo de um infinito complexo fabril de um povoado. Todas as janelas dos prédios estavam pregadas, os tetos furados e caídos. Era evidente que nessa parte do trajeto os trilhos também estavam muito danificados, como era de se supor pelo barulho c golpes das rodas.

O único ser humano que o homem com olhos de peixe pôde descobrir nas ruínas da fábrica, foi um ancião gigantesco, completamente nu, cuja barba toda entrançada pendia quase até o solo. Ele estava ao sol, no meio de um lugar com lajotas brancas, acenando para os que passavam e apontando com insistência com um dedo indicador de tamanho descomunal para uma abóbora que levantava com a outra mão. Ele fazia isso e gritava alguma coisa. Parecia uma palavra de um sílaba, com a qual ele arredondava os lábios. Mas por causa do barulho das rodas, o homem com olhos de peixe não podia ouvi-lo.

O bonde voltou a acelerar. Nesse momento ele passava por um deserto de areia, pedras e alguns rochedos isolados que se assemelhavam a silhuetas e máquinas derretidas. O homem com olhos de peixe disse para si mesmo que, com toda certeza, o bonde devia estar viajando por um desvio. Claro que esse tipo de coisa podia acontecer quando havia algum trabalho sendo realizado na rua. Nesse meio tempo, sua sede tornara-se tão insuportável que lhe era difícil até mesmo respirar. Ele ofegava. Pouco a pouco ele foi caindo em um sono semi-consciente.

Quando voltou a si, fazia muito frio. Ele notou que o sol inclinava-se no horizonte – mas, nesse momento, era evidente que se tratava do oriental. E de repente ele foi sacudido por soluços sem lágrimas. Repentinamente chegou ao fim a paciência surda ou indiferença, com a qual ele se protegera até aqui para não tomar conhecimento do que estava sendo feito com ele. Disse em voz alta que ainda naquela noite ele faria uma queixa enérgica à direção dos Transportes Coletivos, mas isso de nada adiantou, nem ele mesmo acreditou. Essa confissão o encheu de espanto. Ele se sentiu desamparado e mergulhado de cheio no incompreensível. E foi possuído pelo pânico. Levantou-se e cambaleou, jogado de um lado para o outro pela viagem vertiginosa até a plataforma da frente. Ali ele tentou avistar o condutor através dos vidros de três vagões. O vidro estava recoberto de poeira, não permitindo nenhuma visão. Ele gritou e berrou batendo com as mãos na janela, sem chegar a qualquer resultado. Então, meteu a mão no freio de emergência, atitude que considerava justificada num caso como esse. Puxou o freio com todas as forças ao desespero, mas nada aconteceu. Puxou de novo. Puxou até o braço ficar dormente. Puxou com a outra mão. Depois de algum tempo, apoderou-se dele uma raiva cega e a alavanca vermelha ficou-lhe na mão. Uivando como uma criança, ele atirou-a no chão e ficou ali durante algum tempo, olhando fixo para a coisa. De vez em quando seu ofego era interrompido por soluços secos. Pouco a pouco ele se foi acalmando.

Regressou para seu assento e, através do vidro empoeirado, cravou os olhos arregalados e vazios nos desertos que passavam, todos exatamente iguais. A única coisa viva que viu depois de algum tempo, foi um homem com a farda disforme e prateada de um astronauta, puxando um bezerro por uma corda, o qual se defendia, não querendo seguir adiante. Ambos lançavam sombras infinitamente longas pela planície. Isso foi tudo.

De repente o bonde passou a andar bem devagar, quase na velocidade do passo. Ele se assustou. Saindo da profunda meditação, passou a mão no sobretudo e chapéu, apressou-se em direção à plataforma traseira, onde a porta continuava aberta, e saltou. Ele calculara mal a velocidade, por isso tropeçou em pedras, caiu e, durante alguns segundos, ficou deitado. Em senda ocorreu-lhe que seria impossível voltar a pé para casa do meio daquela planície infinita. Afinal de contas, fora a distância, ele também não conhecia o caminho. Sequer sabia os pontos cardeais. Ele se levantou e viu que o bonde não se havia afastado muito. Parecia até mesmo ter reduzido mais ainda a velocidade. Começou a correr, mas logo depois o bonde aumentou a velocidade. Somente com muito esforço conseguiu chegar na pontinha do último estribo e, estrebuchado e aos trambolhões, subir no bonde. Ficou de quatro no meio do vagão, respirando fundo aos estertores, no chão sujo, o rosto escondido na dobra do braço.

Levou algum tempo até que ele se sentisse com força suficiente para se levantar. Bateu cuidadosamente nos joelhos e cotovelos. Seu terno estava rasgado em vários lugares, e a perna esquerda da calça úmida de sangue na altura do joelho.

Ele se postou junto à porta aberta e, de olhos fechados, deixou que o vento da viagem, que nesse meio tempo voltara a soprar com forca, esfriasse seu rosto empapado de suor. Ele já não se protegia contra mais nada. Sabia que estaria de acordo com qualquer coisa. Acontecesse o que acontecesse, era isso mesmo que ele queria.

O sol estava tão baixo no horizonte oriental que o cegou, quando ele se curvou na porta, protegendo os olhos com a mão, tentando reconhecer o lugar por onde o bonde passava. No início, ele achou que a listra escura no horizonte fosse uma cordilheira muito afastada. Depois, achou que estava divisando uma trovoada que se levantava e alegrou-se pela chuva que viria. Somente quando se aproximou mais, foi que viu que essa escuridão mexia-se em si mesma e respirava, parecendo-lhe um bosque soprado por um vento de tormenta ou um muro de cortinas que cobriam todo o horizonte, que balançavam lentamente para cima e para baixo, inchando-se e tragando-se mutuamente para depois soltarem-se de novo.

Somente no fim ele viu as cores: torres de opala que estavam sempre se erguendo para logo depois se dissipar. Paredes deitadas de pura madrepérola transparente, ardentes e vaporosas como vidro corrente.

E o branco, aquele mesmo branco que no princípio ele tomara por relâmpagos no meio da trovoada.

Então, repentinamente o homem de olho de peixe compreendeu o que era aquilo, para onde estava se dirigindo... e compreendeu tão profundamente que seu coração parou:

O mar.


Próximo:
O PALÁCIO DO BORDEL DA MONTANHA IRRADIAVA NESSA NO...

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