domingo, 19 de agosto de 2007

SOB UM CÉU NEGRO ESTA SITUADA UMA TERRA INABITÁVEL


Um deserto ilimitado de crateras de bombas, bosques petrificados, leitos ressecados e infinitos cemitérios de automóveis.

No meio desse deserto situa-se uma cidade sem pessoas. Uma cidade cheia de sombras e janelas negras, o esqueleto de uma cidade.

No centro dessa cidade existe um parque de diversões. Ali reina o mais completo silêncio. As gôndolas enferrujadas da roda-gigante oscilam ao vento frio e os cavalinhos do carrossel estão encanecidos pela poeira.

Nada se ouve além do bater monocórdico de um gigantesco gotejamento de água contínuo e contínuo, poderoso e persistente.

Ou será o batimento de um coração? Mas, se for um coração batendo, de quem é esse coração, então? De um ser humano? De um animal? De um anjo, talvez?

No meio do parque de diversões morto, encontra-se uma criança. Ela está diante de um quiosque colorido com incontáveis figuras, que prometem gargalhadas, comoção e prodígios. Depois de algum tempo, como ninguém a impede, ela atreve-se a penetrar no interior da barraca. Ali ela encontra alguns bancos de madeira lisos, diante de uma cortina fechada, cheia de vários remendos, e que é movida de leve na semipenumbra pela corrente de ar. De repente, a luz da ribalta brilha magicamente nas dobras. A criança senta-se atrás, no último banco, e espera.

Depois de algum tempo, ouve-se uma voz. Ela vem, pelo que parece, de trás da cortina, e soa um pouco rouca, como se não falasse há muito tempo, ou como se estivesse falando pela primeira vez.

– Senhoras e senhores – diz ela – nossa apresentação vai começar logo a seguir, mas precisamos pedir-Ihes ainda um pouco de paciência. Nosso teatro não é como outros teatros, ele não é movido por máquinas como um navio a vapor, ele mais se assemelha a uma nau de três mastros, que depende do baixa-mar e da maré cheia, do vento e das correntes marinhas. E, senhoras e senhores, devemos admitir: em comparação com a conseqüência brutal e estúpida de um navio a vapor, uma nau de três mastros é bela e sensível, mesmo que um pouco antiquada como tudo que é nobre. O que vamos lhes mostrar, senhoras e senhores, não os tornará mais inteligentes ou virtuosos, pois nosso teatro não é nem escola nem igreja. A infelicidade do mundo não será diminuída com nossa apresentação... aliás, também não será multiplicada: ela sempre foi muita. Não temos intenção alguma de enganá-los Não argumentamos. Não queremos provar nada, nem acusar nada, nada apresentar. Sim, nem ao menos queremos lhes convencer da realidade da nossa apresentação, caso os senhores prefiram interpretá-la como fantasia. Poderia parecer, senhoras e senhores, que nós não necessitamos de vocês, no entanto não é bem assim.

Houve uma pausa durante a qual se ouviu sussurros agitados atrás da cortina. A criança do último banco pousara o queixo na mão e esperava.

– Portanto, cá estamos nós – prosseguiu a voz, agora num tom mais alto. – Os senhores aí embaixo e nós aqui em cima. E os senhores com todo direito daqueles que pagaram a entrada, começam a pensar pouco a pouco por que e para quê? Senhoras e senhores, querem saber por que ainda não podemos começar nossa apresentação? Pois posso lhes fazer a agradável comunicação: ninguém tem culpa. A dificuldade nessas condições é a corporificação.

Nosso mágico já está trabalhando há horas com o rosto encharcado de suor e com as mais fortes fórmulas de exorcismo desde Agripa a Einstein, para condensar à visibilidade a forma atrás dessa cortina. No entanto, até agora, ela só tem duas dimensões e corre o perigo constante de desintegrar-se em um montinho de letras. Talvez isso esteja acontecendo pela necessidade que se tem de usar muitos recursos para fazer desaparecer o que restou da apresentação anterior, e que está agora trancado no palco. Precisamos de sua cooperação, senhoras e senhores. Se os senhores tiverem a bondade de nos ajudar, em nome da direção seremos eternamente gratos. Prestem atenção! Sua tarefa consiste em pensar com todas as suas forças em um equilibrista. Os senhores o estão vendo? Lá em cima, entre dois mastros, cintilante e com os pés delicados, nada tendo debaixo de si além de um pedacinho de corda trêmula e o abismo. Não, senhoras e senhores, nenhuma rede! A obrigação de um verdadeiro equilibrista é a de pôr em risco cabeça e pescoço. – É claro que queremos dizer: pôr em risco sua própria cabeça e seu próprio pescoço pois, afinal de contas, um equilibrista não é nenhum general.

Mas para quê?

Ele irá de uma ponta da corda esticada até a outra. Ele bem que poderia caminhar comodamente e sem qualquer perigo na superfície do chão: isso o levaria ao mesmo objetivo... mas não, ele deve escolher incondicionalmente o caminho sobre a corda. Por quê? Naturalmente que não é pelo pagamento, que é pouco. Sua ousadia não é de utilidade para ninguém, sequer para ele mesmo. A admiração do público tem pouco peso em vista da ameaça de queda. Além disso, aqueles que são verdadeiros equilibristas cumprem com seu dever, mesmo quando não há ninguém assistindo. E será que importa para ele ir de um lado para o outro? Afinal os lados não são confundíveis? Portanto, pensem bem nisto: para que ele coloca em jogo sua existência por si mesma já discutível? E por que o faz repetidas vezes?

Nesse momento, a esfarrapada cortina de remendos coloridos começa a se abrir devagar, aos solavancos e com chiados. – Bravo! – grita a voz. – Não sabemos, senhoras e senhores, quem dentre todos vocês aí embaixo pensou na resposta certa, mas com ela conseguimos a corporificação. Allez-hopp! Et voilá! Cá está ele!

Na semipenumbra do palco, encontra-se uma pessoa que traz na cabeça um enorme e estranho chapéu. Ele aponta com a mão esquerda para cima e com a direita para baixo. E assim fica imóvel durante alguns segundos. Então, subitamente ele vem à rampa, tira o chapéu e inclina-se numa saudação quase até o chão, diante da criança no último banco.

– Obrigado – diz ele –, você fez a coisa muito bem.

– Quem é você? – pergunta a criança.

– O Pagad[1] – responde o homem, sentando-se na rampa e balançando as pernas.

– E o que você é? – pergunta a criança.

– Um mágico – responde o homem – e também um saltimbanco. Ambas as coisas.

– E como você se chama? – a criança quer saber. Tenho um monte de nomes – responde o Pagad – mas no início eu me chamava Fim.

– Poxa, que nome mais gozado – diz a criança rindo.

– Sim – diz o Pagad – e como você se chama?

– Eu só me chamo criança – diz a criança encabulada.

– Bem, de qualquer modo muito obrigado – diz o homem de chapéu – por ter imaginado a mim. E assim eu posso imaginar você. E com isso a apresentação chega ao fim – ele pisca o olho.

– Já? – pergunta a criança. – E o que vamos fazer agora?

– Agora – responde o homem na rampa, cruzando as pernas – agora nós começamos alguma coisa.

– Posso ficar com você? – pergunta a criança.

– As pessoas vão procurar você – diz o Pagad com rosto sério.

A criança balança a cabeça.

– Onde você mora? – o Pagad procura se informar.

– Não se pode mais morar em lugar nenhum – responde a criança. – Eu pelo menos não posso.

– Neste caso, eu também não – diz o Pagad pensativo. – Que fazemos então?

– Podemos ir embora juntos – a criança propõe – para procurar um novo mundo onde possamos viver.

– Boa idéia! – diz o Pagad, colocando na cabeça seu enorme e estranho chapéu. – E se não acharmos nenhum, fazemos uma mágica e criamos um.

– Você pode fazer isso? – pergunta a criança.

– Ainda não tentei – responde o Pagad – mas se você me ajudar... A propósito, acho que você devia ter um nome de verdade. Vou chamá-la de Michael.

– Obrigado – diz a criança sorrindo – agora estamos quites.

Então, eles saíram da barraca, abandonaram o parque de diversões e a cidade. Caminham sob o céu negro, entretidos numa conversa, indo em direção ao horizonte e ficando cada vez menores. Estão de mãos dadas e não se pode saber ao certo quem leva quem.


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DUAS PESSOAS DESCEM A RUA DE MÃOS DADAS: UMA FIGUR...


[1] Pagad: carta de trunfo no tarô. (N. do T.)

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